Quadros de guerra

Numa noite de exposição, pessoas enquadradas pediam ajuda. Era possível ouvir gritos e choros: pedidos de clemência aos que apreciavam as obras. Vivas. De um destino construído pela maldade de quem queria nada menos — tudo a mais — que poder.

Enquadradas, pessoas imploravam por vida.

Os visitantes, ombros nos ombros alheios, rodopiavam como em uma dança de contato descompromissada, insensível, “para inglês ver”.

As obras, censuradas e penduradas por uma eternidade, esperavam quem pudesse se manifestar contra o sistema da poderosa ganância capitalista, e salvá-las da triste realidade de uma vida não considerada vivível, uma vida pela qual não se chora, uma vida da qual a minoria somente ouviu falar. Essas vidas que não são lamentadas.

Eis que o sol surgiu: uma luz no fim do túnel, mas não a luz do fim, e interrompeu a dança. Silenciou gritos. Secou lágrimas e derramou outras. Olhou para as vidas enquadradas, censuradas, banidas, barradas nos bailes. Olhou nos olhos contidos em cada uma das molduras populadas por guerras injustas e hediondas — they were nothing but heinous wars — e tomou uma para si, agora seu destino.

Desde então, o sol, essa força descomunal presente até mesmo na escuridão, ilumina esse quadro. Seu destino. Enquanto os demais seguem pendurados no museu da vida presente.

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