Estudos de gênero e educação — Precisamos conversar mais sobre isso

A família

Podemos pensar na família como o primeiro contexto em que gênero funciona como enquadramento do indivíduo em papéis e relações sociais, porque nela se iniciam os esforços de organização social fundamentada em sexo, sobrevivência e o bem-estar das crianças. A família é, portanto, uma fonte de entendimentos do que é cultura e do que são arranjos sociais.

Na família, gênero define expectativas e comportamentos — por exemplo, quem faz o quê na manutenção do lar e no cuidado das crianças. Essas expectativas são criadas entre os membros da família, uns em relação aos outros em um lar, mas também em relação a outros parentes, vizinhos e a qualquer pessoa que tenha qualquer tipo de interação com a família. Expectativa é antecipação, que cria o sujeito e, portanto, o papel dessa pessoa no lar. Esse entendimento do indivíduo começa pelo gênero, que também é ponto de partida para julgamentos.

Em uma família formada a partir do padrão heterossexual — falamos aqui de família constituída por mãe, pai e criança(s) —, gênero é a maneira mais poderosa — no sentido mesmo de relação de poder entre os indivíduos — de organizar espaço, mais poderosa até do que dinheiro e classe social, já que em nossa cultura essas diferenças são menos recorrentes dentro do núcleo familiar.

O resultado concreto disso é que, em geral, quando mulher e homem se casam, o trabalho doméstico é maior para a mulher e menor para o homem. Quando nascem as crianças, as mulheres, em geral, são quem reorganizam a agenda para se dedicar à família.

Nesse cenário, a compreensão de gênero se torna as lentes pelas quais percebemos relações materiais e emocionais.

A família é a fundação das relações na sociedade, portanto, é a origem também de conhecimento sobre nossa cultura e sobre a organização que ainda mantém a desigualdade de gênero no mundo contemporâneo.

Como isso começou

Quando foi que você soube que era menina ou menino? Como isso aconteceu? Quais foram as consequências dessa descoberta?

Frequentemente isso acontece a partir de funções biológicas, a partir da genitália. Pode ter acontecido, por exemplo, quando você foi pela primeira vez ao banheiro sem estar com sua mãe ou seu pai, porque nesse dia você precisou escolher qual porta abrir e acabou abrindo aquela que te levaria a um espaço onde pessoas têm o corpo semelhante ao seu.

Assim, em um dado momento da vida, passamos a entender que o sexo — as características biológicas — explica quem somos. Então começamos a escolher o que ler, o que comer, o que beber, o que vestir, como arrumamos os cabelos, as unhas e tantas outras coisas a partir do sexo. A partir de uma simples “divisão de portas” dividimos a sociedade.

O mundo material é fundamentado no gênero, ou seja, “generizado”. Commodities são “generizadas”.

Mas o mundo emocional também é.

Porque o gênero nos oferece consolo, explicação, compreensão e faz comportamentos parecerem naturais. Quem nunca ouviu alguém dizer “isso é coisa de menino”, “só podia ser mulher”?

O poder do gênero é o poder de controlar o indivíduo ao longo da vida. Isso acontece consciente e inconscientemente. Parece que nossa necessidade de policiar o outro é a principal cola que mantém sexo e gênero juntos.

Se uma criança crescer sem que lhe seja imposto um gênero, será fonte de ansiedade para quem quer que interaja com ela, porque as pessoas não saberão do que brincar, que emoções ou conhecimentos compartilhar ou até mesmo como se referir a essa pessoa. Mas, quando nos relacionamos com o outro, isso deve ser feito nos termos do outro, não nos nossos termos, não em termos genéricos. Partir do pressuposto de que conhecemos a essência de alguém a partir de características físicas é negar a individualidade.

Os padrões impostos pela sociedade matam a individualidade, aniquilam o ser humano. Nós não somos computadores para sermos programados — “tem cabelos longos, logo…”; “a voz é fina, logo…” — e podemos interagir, perguntando o que o outro quer, do que precisa.

Além disso, não criamos nossas crianças para viverem nesse pequeno grupo chamado família. “Criamos as crianças para o mundo”, dizia minha avó. E as escolas são uma miniatura do mundo. São a primeira experiência social de crianças, fora do pequeno grupo que chamamos família.

Perguntar sobre identidade, desejos e necessidades particulares não é problema, é interação.

Será então que a dificuldade em aceitar a diversidade está em não querer interagir e, portanto, precisar de respostas rápidas para “quem é você?”

Diversidade na escola

Se o mundo é diverso, as escolas também devem ser.

E tudo bem se um professor ou professora tiver que perguntar a cada estudante sobre sua identidade. Em qualquer contexto, devemos nos relacionar com a realidade do outro e não com o que esperamos que o outro seja — nossa expectativa, ou antecipação. Isso significa dialogar, deixar vozes falarem, ouvi-las e conviver com elas. E tudo bem se são vozes diferentes. Não precisamos controlar a voz do outro de modo a torná-la nossa. Qualquer pessoa, em qualquer posição deve poder falar.

Quando falamos em gênero e família, gênero e educação, falamos sobre ler indivíduos como verdadeiramente são, interpretando histórias e reconhecendo o significado de cada uma delas, sem julgar e sem desejar que o “outro” seja igual ao “eu”.

Por mais que a gente goste da própria história, devemos reconhecer e jamais impedir a existência de outras, porque são as vidas diferentes que nos permitem crescer. Não aprendemos com nosso próprio discurso. Se todos os dias você abrir a mesma janela e sempre olhar para o mesmo cenário, você começará a acreditar que aquilo que vê é tudo o que existe.

Gênero é diversidade. Gênero somente existirá se pessoas forem livres para expressá-lo. As únicas coisas que existem são as coisas que realmente existem. Ou seja, precisamos permitir que crianças, estudantes, amigos, vizinhos escrevam a própria história, mudem os paradigmas, vivam sua própria linguagem e existam. Precisamos permitir transgressões, transformações. É necessário deixar que as pessoas quebrem barreiras e mudem discursos sociais.

Não podemos humilhar, destruir o outro, apenas porque há diferenças entre nós. Quando a proposta é pensar em questões de gênero na escola, não pensamos em IMPOR comportamentos, mas PERMITIR e RECONHECER a existência de comportamentos diferentes do padrão. Pensar em questões de gênero na escola é debater com os estudantes o que eles sentem necessidade de debater, e não somente o que nós — poderosos professores, diretores, detentores do conhecimento? — pensamos que eles precisam debater ou julgamos que eles estão prontos para conversar. Quem é melhor para definir o momento certo de uma conversa senão a própria pessoa que está conversando? Compreender que escola é espaço de diversidade é criar um ambiente em que um menino não será chamado de boiola porque é delicado, cruza as pernas ao sentar e convive mais com as meninas, ou que uma menina não será a sapatão da turma porque não pinta as unhas, não usa maquiagem e tem a voz grossa.

A educação, seja ela em qual contexto acontecer, deve permitir a existência, e não forçar padrões nem proibir vivências, porque educação não é jogo de poder.

Educação não é um jogo, mas quando falamos em educação a vida está em jogo.

E a quem isso tudo interessa? A todos nós que não encaramos a vida como uma commodity.

 

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