Do que falamos quando falamos em gênero

O que é gênero?

Quando falamos em gênero falamos no conjunto de características que diferenciam as pessoas — entendemos que gênero é uma identidade individual independente de sexo. Gênero é social.

Sexo é biológico, determinado por um conjunto de características físicas. É o resultado da relação arbitrariamente estabelecida entre órgãos, corpo e o significado que eles têm.

Sexualidade é independente de gênero, ou seja, um não é determinado pelo outro. Sexo também não determina a sexualidade.

Falar em gênero não significa, necessariamente, falar de sexualidade. Não dá para dizer, por exemplo, que uma pessoa que se identifica como trans ou outra que se identifica como drag seja hetero-, bi- ou homo-. Assim como não é possível dizer isso a partir do sexo da pessoa.

Portanto, gênero, sexo e sexualidade são conceitos paralelos.

 

O que são os estudos de gênero?

Em primeiro lugar, é importante ressaltar: Não é ideologia! Trata-se de estudo, filosofia, pesquisa, reflexão, investigação.

Os estudos de gênero propõem investigar e refletir sobre as questões que envolvem essa identidade individual do ser humano. Ou seja, é um estudo que busca conhecer os seres humanos para além do senso comum, ou do conhecimento naturalizado. Também é um estudo sobre a relação desses indivíduos na sociedade e vice-versa.

Entendemos que existe uma noção do que é a realidade, a natureza do ser e da existência de tudo o que há. E que, a partir dessa noção, criaram-se categorias: maneiras de compreender quais sujeitos existem, como eles devem ser agrupados e hierarquizados, como devemos pensar a sexualidade, a identidade, a linguagem das pessoas. Isso é feito a partir de semelhanças e diferenças.

Gênero sempre foi compreendido como uma manifestação natural do sexo ou um costume cultural que não é passível de revisão.

Esse conhecimento naturalizado, ou o senso comum em relação a gênero é uma delimitação violenta da realidade. As normas de gênero têm por função determinar os seres humanos que podemos compreender como tal, determinar o que e quem é real e legitimar ou não expressões de identidade.

Mas a realidade não é fixa. A mudança é constante. O ser humano não está pronto.

Portanto, queremos também, abordar a violência contra os corpos que mudaram, ou seja, aqueles que não estão de acordo com uma realidade estabelecida a partir de normas. Porque quando somos capazes de revisar e refletir sobre normas ou padrões estabelecidos, desnaturalizamos ações como, por exemplo, a violência implicada em determinadas relações. Desnaturalizamos discriminações. Tornamos vidas possíveis.

Ou seja, se deixarmos de reprimir ou oprimir as vidas que não estão de acordo com as normas e pensarmos sobre elas como vidas possíveis, vivíveis, e refletirmos sobre maneiras de lidar com elas, trabalharemos na construção de uma sociedade mais saudável.

A proposta é, portanto, discutir o que é a vida e como essa predeterminação ou normatização de gênero e sexualidade determinam o que é e o que não é humano ou vivível.

 

Por que refletir sobre gênero provoca tanta gente?

Dizer que precisamos pensar a realidade porque ela não é fixa provoca. Desestabiliza uma ordem. Desestabiliza as relações de poder.

Quando pensamos em gênero como uma performance, dá para entender a resistência de grupos mais conservadores em aceitar a possibilidade de ampliarmos esse conhecimento.

Quando um indivíduo nasce, ou ainda no útero, busca-se a genitália para determinar o sexo. A partir dessa informação, os demais sujeitos relacionados a esse criam expectativas e antecipam quem aquele indivíduo será. A antecipação cria o objeto.

Se é menina, as expectativas são de gênero feminino e sexualidade heterossexual, ou seja, uso de roupas cor de rosa, vestido, maquiagem, salto alto, casamento com homem etc.

Se é menino, gênero masculino e sexualidade heterossexual, ou seja, uso de roupas azuis, shorts, calças, tênis, casamento com mulher depois de namorar muitas outras mulheres etc.

Expectativas de comportamentos também são criadas.

Dessa maneira, antecipamos nossas relações. Sabemos como lidar com o sujeito, sabemos se encontraremos esse ou aquele indivíduo em um determinado lugar. Nosso conhecimento em relação ao outro parte da anatomia, ou quando ela não pode ser devidamente analisada, parte de roupas, acessórios, maquiagem etc.

O “Eu” passa então a saber se relacionar com o “Outro”. E, em alguns casos, estabelece seu poder sobre o “Outro”. Mas se o “Outro” fugir à regra, o “Eu” perde o controle. De ambos.

É como um texto que inverte as regras gramaticais. Ele se torna irritante, sobretudo, porque gera mais trabalho para o leitor.

A impossibilidade de “ler” um corpo é a impossibilidade de distinguir real de irreal. Isso se torna um desafio irritante. É quando o senso comum falha ao tentar incluir um indivíduo em uma categoria. Então está aí a resistência de quem é conservador e pensa em realidade fixa. A mudança gera desafios, trabalho na compreensão. A mudança no “Outro” obriga o “Eu” a mudar. Mas algumas pessoas querem se conservar no mesmo lugar.

Mas qual é mesmo o problema de um homem usar saia?
Por que um menino não pode passar batom ou usar esmalte?
Por que uma menina não pode jogar futebol?
E qual é o problema de uma mulher ter pelos nas axilas ou nas pernas?

E ainda: Por que determinados papeis sociais são exclusivos de mulheres e outros de homens?

Quando pensamos em gênero, quando estudamos gênero, refletimos sobre essas relações normatizadas e buscamos respostas para questões como:

Qual é o limite entre indivíduo e sociedade?

Como podemos diminuir a violência contra os corpos? Diminuir o assédio às pessoas que não estão de acordo com as normas?

Como podemos criticar e refletir sobre vidas sem julgar, mas sim, multiplicando as possibilidades do que podem ser vidas vivíveis?

Quando estudamos gênero não estamos querendo obrigar ninguém a nada; não queremos estabelecer características padrões; não queremos forçar crianças a assumirem determinados comportamentos. Já existe uma normatização que faz isso.

Buscamos minimizar a violência e a opressão contra indivíduos que são diferentes dos padrões até então considerados naturais, senso comum.

 

Anúncios