A estrutura na escrita (vida) criativa

Uma história é um tecido alinhavado por elementos da narrativa. Há que se costurar bem, para não criar buracos nem deixar pontas de fios soltas. Nessa costura, o mais importante é como usar os fios que temos. Se o mocinho sobrevive ou morre no final, isso não importa tanto, mas o caminho que ele percorre, os obstáculos que ele enfrenta, o tempo, o espaço, as pessoas que interagem com ele e seus diálogos, bem como seu objetivo e, sobretudo, como você nos conta a história são de grande importância.  Por isso, saber o que vai acontecer é inofensivo.

Vidas são histórias e o grande spoiler de todos: vamos morrer no final. Se nos preocupamos com o spoiler, deixamos de viver.

Textos (Vidas) devem ter estruturas as quais podemos desconstruir, mas delas jamais fugir. Certa vez, perguntaram ao compositor russo Igor Fyodorovich Stravinsky se ele não se sentia preso por estar limitado a apenas 88 teclas para criar suas obras. Ele respondeu que não; as teclas eram para ele estrutura, criavam um universo dentro do qual ele estava livre para fazer o que quisesse. Alguns anos mais tarde, na década de 80, Renato Russo cantou que “disciplina é liberdade”.

Estrutura é disciplina, e dentro de seu universo, podemos fazer dela o que bem entendermos, não há limite para como a utilizamos. Não há limite para a criatividade.

O universo estruturado é tão somente a organização do caos, e ele é infinito.

Nas histórias que escrevemos, algo grande, impactante, ocorre para dar início a tudo. O protagonista então parte para sua jornada, deixando seu velho mundo para trás em busca de algo novo — uma jornada pela descoberta do novo mundo. No caminho ele encontra obstáculos que, a princípio, podem o impedir de seguir, mas ele luta bravamente, às vezes pensa em desistir, mas segue persistente. Quando está prestes a alcançar sua meta, a chegar no topo do novo mundo, outro grande acontecimento provoca uma virada na história. No final: o desfecho. Redenção. Aquele sujeito que partiu em busca de algo chega em algum lugar, mas agora um “outro sujeito”. Princípio, meio e fim.

Eis a estrutura mágica da história. Eis o mistério da vida.

Estruturar um texto (se estruturar) é colocar ordem no caos gerado por nossos impulsos e ideias e criar algo (alguém) coerente que conte uma história (vida). Aprender regras, maneiras de se organizar, é permitir-se ser livre. Porque o conhecimento permite experimentar, torcer, virar, revirar e seguir a personagem (caráter) para onde for.

 

Além de escritora e tradutora, Ana Luiza Libânio é professora de escrita criativa e literatura. Saiba mais sobre a Oficina de Escrita Criativa para Jovens e o Happy Hour de Escrita Criativa com início em 20 de outubro, 2017, no Estúdio Kubo, Rio de Janeiro.

 

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