Se pode ser escrito, pode ser filmado

“If it can be written or thought, it can be filmed.” – Stanley Kubrick

fullsizeoutput_3d5fQuando romances são adaptados para o cinema, o comentário mais comum é: “o livro é muito melhor”. Mas precisamos entender que livro e filme são dois meios distintos de “contação” de história, por isso, o resultado é sempre diferente — a não ser, talvez, que o livro seja escrito por um autor que pensa e cria como roteirista. A começar pelo tamanho. Ao adaptar um romance, o trabalho do roteirista é mais ou menos como acomodar a cidade de Tokyo dentro de, por exemplo, Niterói. No caso do filme “It: A coisa”, trata-se da adaptação de um romance de 1090 páginas — no caso da edição da Signet Book, Nova York, setembro de 1987 — para um roteiro de, provavelmente, 135 páginas. Não à toa, haverá continuação. Já o filme “Torre negra” é a adaptação de uma série de oito romances de 300 a 500 páginas cada para um roteiro de, provavelmente, 95 páginas. A série “Quatro estações em Havana”, do Netflix, é uma adaptação de quatro livros de aproximadamente 200 a 250 páginas cada um para quatro episódios de uma hora e meia cada.

Não se trata de ser melhor ou pior, a questão é se o roteiro conseguiu adaptar as múltiplas camadas da história contada em forma de romance em poucas camadas — às vezes apenas uma — de uma história contada em forma de filme.

Mas então, o que considerar na hora de escrever uma adaptação? 5 passos podem ajudar nesse desafio. Defina:

  1. Uma palavra — um substantivo, preferencialmente, que contenha em si o tema da história. Ela vai servir como ponto de partida, e ponto de referência na hora de cortar as sobras, descartar o desnecessário.
  2. Logline — Duas frases que resumem a essência da história, destacando o gênero.
  3. Os sete “lugares” da narrativa — quem, o quê, onde, quando, porquê, para quê, como.
  4. Arco da narrativa.
  5. Lista de cenas.

Adaptações que resumem a narrativa do romance muitas vezes se tornam narrativas distintas do livro, porque o roteirista precisa fazer escolhas. Em “It: A coisa”, a cena de abertura foi alterada em vários detalhes, desde o material de que é feito o barco de papel de George ao momento em que ele encontra o palhaço dentro do bueiro — o filme é menos violento. A série “Quatro estações em Havana” alterou a ordem dos livros e começa pelo segundo da série de livros escrita por Leonardo Padura. O filme “O iluminado”, de Stanley Kubrick, é um exemplo de adaptação muito diferente do livro, mas que ainda assim é boa.

No final das contas, o que vale é pensar se a essência de Tokyo foi devidamente organizada dentro de Niterói. A história sobre medo continua sendo sobre medo? A busca do protagonista ainda é a mesma? Os desafios e o crescimento da personagem está devidamente narrado? As cenas estão bem conectadas e existe um arco narrativo?

Há adaptações que no meu entender são lamentáveis por perderem a essência da história, o fio da meada. Nesses casos, seria melhor abrir mão do substantivo adaptação e partir para um argumento original — isso já aconteceu, sobretudo, com filmes cuja proposta é modernizar uma obra clássica. Se pode ser escrito ou pensado, pode ser filmado, disse Kubrick. Mas para ser bem filmado, deve ser bem contado.

 

Ana Luiza Libânio é autora do livro “A história de Carmen Rodrigues” e roteirista do curta-metragem “Parênteses“. Atualmente está trabalhando no roteiro de adaptação do romance “Interlúdio” de James McSill.

 

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