Armários & Varandas

Na casa da minha avó, na rua Bárbara Heliodora, tinha uma varanda no segundo andar, no quarto da minha tia-avó. Nunca fui nessa varanda. A porta estava sempre trancada.

Na casa da minha avó, onde hoje um quase arranha-céu acinzenta memórias afetivas, algumas coisas estavam sempre trancadas.

Mas casas são sempre assim.

E nessa casa muitas coisas estavam sempre trancadas, exceto o coração da minha avó.

O armário de louças que ficava na entrada do quarto dos meus primos tinha uma porta larga de madeira escura — qual é a madeira mais escura? — e uma pequena fechadura. Mas não tinha chave. Sempre que passava por aquele quarto depois de subir a escada ou antes de descê-la, eu tentava imaginar o que havia dentro daquele armário. Sempre que brincávamos naquele quarto, eu secretamente esperava que a porta se abrisse para revelar o segredo mais secreto da minha avó.

Às vezes, meus primos e eu ficávamos miando no escuro um à procura dos outros — uma brincadeira que chegou a render sérios machucados, inclusive de um primo que trombou com a boca cheia de aparelhos de dente na porta escura do armário — e eu só queria encontrar os segredos.

Um dia, era festa na casa da vovó e ela saiu do quarto usando um vestido branco com estampa preta. Se minha memória não me trai, eram bolas pretas, mas eram bolas disformes. Como de costume, ela estava de meias 3/4 e uma chave presa no sutiã, com um alfinete de fraldas de ponta cor-de-rosa — acho que às vezes ela usava um azul. Minha avó nunca usava salto alto, porque faz doer a panturrilha. Antes de descer a escada, ela passou pelo quarto de meus primos e entrou. Vi a porta do armário se abrir. Como ela estava na frente, vi apenas algumas louças, senti o aroma da madeira — qual é mesmo a madeira mais escura? — e notei haver mais alguns objetos ali.

O armário era fundo, escuro e fascinante. Mas eu estava trancada do lado de fora do armário. E precisava entrar.

Minha avó fechou a porta e girou a chave. Ali não era lugar de criança. Mas ela piscou para mim e entendi que um dia eu poderia entrar no armário, mas eu precisava estar pronta para isso.

Meses e anos se passaram. Em dias de faxina, eu via a Zezé passar enceradeira na varanda, antes de trancá-la. Em dias de festa, eu via vovó Conceição pegar louça no armário, antes de trancá-lo.

Até que um dia, a porta se abriu. Entrei.

Não quis quebrar louças, não quis estragar a madeira — seria de jacarandá? — e muito menos queria ter o que não era, verdadeiramente, meu.

Eu queria apenas descobrir o que havia no armário.

No dia que entrei no armário, a porta da varanda se abriu, mas eu estava no escuro e respirava o aroma de um passado esculpido na madeira mais escura e rígida, ainda que aromática, e servido em louças do início do século XIX.

Agora, eu precisava sair do armário.

Mas nas casas, há portas que permanecem sempre trancadas e é necessário estar preparado para abri-las.

Mais meses e anos se passaram e eu não via mais nem Zezé, nem vovó. Enceradeiras passaram a ser meme de Facebook — se você se lembra disso… — e nunca mais vi uma chave presa no sutiã com alfinete de fraldas. Aliás, nunca mais vi alfinete de fraldas.

Mas o sorriso da vovó estava impresso em mim, como se todos os dias ela abrisse a porta do armário, olhasse para mim e dissesse “isso aqui não é lugar de criança” antes de piscar, como quem na realidade diz “você pode, confie”.

Então, finalmente consegui abrir a porta do armário. O barulho incomodou um pouco quem estava por perto — um ranger que todos reconhecem poder acontecer, mas ao mesmos tempo esperam jamais escutar, sobretudo, quando a porta está em sua casa. Mas, assim como é melhor arrancar o Band-Aid de uma só vez, ao abrir uma porta é melhor fazê-lo sem pestanejar, com a confiança de quem está fazendo certo, e por isso empurrei aquele pedaço de madeira que me mantinha distante de um segredo que depois descobri não ser tão segredo assim, e caminhei para a varanda.

O piso já não era tão encerado como antes.

Coloquei sobre o para-peito um pé de cada vez. Abri os braços. Em um largo abraço. E voei.

Desde então, nunca mais parei.

Como disse o olhar e o sorriso da vovó, eu posso, então eu confio. E jamais haverá porta
— seja lá qual for a madeira mais escura, mais clara, mais aromática, mais fedida — capaz de me trancar dentro ou fora de qualquer lugar.

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