Miséria e grandeza

Você conhece Deoquinha Jegue Ruço? E Lourival Divino Beiço? Já ouviu falar na Benedita? Conhece o Alvito Filósofo?

Então espere, vou te contar onde os conheci.

“Boa tarde! Qual é o convênio?”

“Ótimo. Pode aguardar que a doutora já vai te atender.”

Sento-me diante de duas outras mulheres que, não muito felizes, folheiam revistas de fofoca. Ao meu lado a terceira cochila tendo em seu rosto um sorriso suspeito. Na TV, adolescentes discutem o que lhes é essencial em mais um clichê-hollywoodiano-sessão-da-tarde. Em minha mochila, um livro. No livro, uma pergunta: “que é que se vê nesta ilha, que no mundo não tem comparação?” E diz que nem mesmo depois de dezoito vidas ali, se tomará conhecimento do que há naquele lugar. Então minhas duas horas de espera foram aliviadas por baianos que vivem situações hilárias, trágicas, ou simplesmente situações itaparicanas que somente um grande escritor como João Ubaldo Ribeiro poderia nos contar.

Com grande maestria, Ubaldo criou um bando bastante peculiar de personagens que de comum, nada têm. No centro da narrativa de Miséria e grandeza do amor de Benedita está Deoquinha – homem mulherengo, pai de tantos filhos que seria impossível andar pela Ilha de Itaparica sem topar com um deles – e sua devotada esposa Benedita. Ela é um “exemplo de abnegação, virtude, devoção renúncia e bom coração!”. É sempre feliz e dedicada tanto ao marido quanto aos frutos legítimos – e os bastardos também – como uma mulher deve ser. E no meio da filharada encontra-se quase de tudo “só não [há] assassino, porque ladrões há mais de um, bem como vagabundos e safadas sonsas e até um avariado do juízo.”

Miséria e grandeza do amor de Benedita é um romance à moda de Jorge Amado – por vezes semelhante a Gabriel García Márquez – que te envolverá em situações inesperadas e, ao final, arrancará de ti risadas e um “não é possível! Só o Ubaldo mesmo!”. Você então fechará o livro e responderá àquela pergunta assim: nesta ilha, tudo o que há não tem comparação no mundo.

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